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O futebol apresenta alguns sérios problemas a quem pretenda desvendá-lo como produto cinematográfico, isto é, como algo a atrair publica e crítica. Ele carece de alguns elementos quase indispensáveis no relacionamento de um filme com suas platéias.
Para começar o futebol diz respeito a temas como derrota e vitória, êxtase e dor, ambições que se cumprem ou se frustram, de glória ou fracasso, ás vezes das duas, levadas sempre no limite, quase no paroxismo de suas possibilidades. No futebol há tragédia e comédia, mas não há lengalenga, não há conversa mole. Isto é, dificilmente um filme sobre futebol vai abrigar situações de se compõe a maioria das novelas de televisão, a maioria dos filmes médios bem sucedidos. Novelas e filmes para publico são os chamados filmes sobre “relacionamentos”, ou seja, produções que a despeito de terem na trama outras situações criadas especificamente para desviar a atenção, falam basicamente de casais de classe média ,seus problemas, sua felicidade ou infelicidade. O fato de que esses relacionamentos são tratados em geral de forma primária normalmente passa despercebido. Ocorre que esse é o tema, por excelência, da classe média: filmes, novelas, até mesmo livros e peças de teatro que tratem de seus pequenos problemas, nos quais eles se vêm “retratados”. Não é preciso citar essas produções que muitas vezes ganham a simpatia de certa crítica, - não fosse ela também classe média- quando apresentam um mínimo de sofisticação a ponto de parecerem inteligentes. O futebol está, portanto, fora do universo intelectual dos casaisinhos. Também não apresenta, infelizmente, outras condições que poderiam fazê-lo mais considerado entre certa crítica e público. Temas que costumam dar certo, e sempre utilizados, quando necessário, temas que recorrem aos sempre disponíveis exércitos de marginais, miseráveis e excluídos de que é composta a sociedade brasileira, sobretudo crianças. Recentemente, por exemplo, recorreu-se fartamente ás periferias. Houve uma profusão de filmes que se valeram das mazelas que todos conhecem e fez desfilar na tela o tema em suas diferentes possíveis variações. O futebol também não tem, infelizmente repito, como se basear em obras literárias que lhe dariam maior respeitabilidade perante crítica e publico. Seria impossível recorrer a livros de futebol pela simples razão de que eles não existem. Como agir então quando se trata de se aproximar cinematograficamente desse assunto? Há várias maneiras: uma delas é acrescentar ao tema, para torná-lo palatável, uma série de elementos que o aproximariam dos “filmes de casaisinhos”. Via de regra o tema é deformado até ao ponto de parecer, por exemplo, uma comédia romântica e não o que deveria ser, isto é um filme sobre futebol. O produto desses artifícios quase sempre é um filme idiota., mas que sob certas circunstâncias alcança algum público. Outra maneira é apresentá-lo sem rodeios, diretamente para um determinado publico especial, e esses são os filmes que apresentam o futebol tal como ele se dá no campo. São filmes de gols, e jogadas de um determinado craque ou de determinada equipe ou seleção. Esse tipo de filme parece dizer: atenção! isto não é um filme, não é cinema! Nunca pretendemos isso! É apenas um evento audiovisual que mostra lances de futebol, que v. poderia ver em casa, mas por alguma razão não viu ou quer rever. Esse tipo de filme também encontra, muitas vezes, seu público. Resta um terceiro tipo de abordagem: aquela que apresenta o futebol como cinema, que não tem medo de oferecê-lo como possibilidade de reflexão estética e moral, que vê nesse assunto as mesmas possibilidades de olhar para dentro dos seres humanos á altura de qualquer outro assunto artisticamente válido, que não teme enfrentar certo esnobismo provinciano que classifica assuntos de que deve se ocupar a arte segundo figurinos de Paris ou lugares ainda piores, que, enfim, não se furta a apresentar o futebol obedecendo aos componentes que me referi no começo: o medo, a glória, a sarjeta, a desgraça, a conquista, a vida e o esquecimento. Há filmes assim, no catálogo da 2001 inclusive. Não são muitos, é verdade, mas existem. Tanto, no campo da ficção como no documentário. São os verdadeiros filmes sobre futebol. * O cineasta paulistano Ugo Giorgetti escreve com exclusividade para a 2001 Vídeo sobre a relação entre o cinema e o futebol. ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]()
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