Televendas (11) 2246 2001
carrinho
0 itens
R$
0,00
Total
Frete

 

Vladimir Carvalho

 

  Rock Brasília
  DE VOLTA AOS ANOS 80


Em entrevista inédita para a 2001, o professor e documentarista Vladimir Carvalho fala sobre seu carinhoso resgate da cena musical surgida na capital federal três décadas atrás

 

Como surgiu o projeto de Rock Brasília - Era de Ouro?

Nada é por acaso. Nas disciplinas de documentários na Universidade de Brasília sempre procurei motivar os alunos a abordarem aspectos da cidade, desde o seu cotidiano como um centro pulsante de atividades humanas, sociais e políticas. E quando dei de cara com o fenômeno das duzentas bandas de rock criadas ali pelos fins dos anos 1970 pedi para que escrevessem roteiros sobre o assunto. O tempo passou e a rapaziada do rock brasiliense já despontava na mídia nacional e nos shows pelo Brasil afora quando decidi eu mesmo registrar os shows que Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude vinham fazer em Brasília como uma espécie de filhos pródigos.

 

Foi difícil conseguir o depoimento dos integrantes dessas três bandas?

Sou contemporâneo dos pais dos principais componentes dessas bandas e sempre mantive uma relação de amizade. Por uma sorte morei muitos anos em quadras de Brasília onde residiam os filhos de diplomatas que se tornariam chefes de banda, ou importantes elementos como Dado Villa Lobos, Dinho Ouro Preto, Bi Ribeiro, Herbert Viana e tantos outros cujos pais trabalhavam na alta burocracia do governo como técnicos ou intelectuais que eram. Muitos desses jovens estiveram no exterior com a família. Como foi o caso de Fê, Flávio e de André e Bernardo Mueller, estes da Plebe e da Escola de Escândalo, que estavam na Inglaterra por ocasião do aparecimento do punk britânico. Aconteceu então de municiarem seus amigos da chamada Colina, um "bairro" dentro da UnB, todos interessados no rock, com fitas e informações do que acontecia lá. Ali debaixo de seus blocos residenciais é que nasceria o vitorioso movimento que chegou aos dias de hoje. 

 

Por envolver um grande número de biografados e entrevistados, a pesquisa deve ter sido interminável. Fale sobre essa etapa da produção.

Eu tinha tudo na cabeça desde os anos oitenta, mas cumpria uma pauta de compromissos com outros filmes que realizei, mas jamais deixei de pesquisar e de guardar montanhas de recortes de quando a raça já estava na estrada. Seguia rigorosamente os passos de Renato Russo onde quer que ele fosse. Sabia de tudo porque era seu vizinho de quadra, e isto no espaço arquitetônico de Brasília, onde na época todo mundo se conhecia. Quando li a excelente biografia dele realizada magistralmente pelo jornalista e pesquisador Carlos Marcelo senti que estava no clima daquela empreitada literária onde sou citado como um cara do cinema preocupado em trabalhar a memória da capital brasileira em todos os seus aspectos. Mas nesse ponto eu já havia levantado uma seria de personalidades que poderiam contribuir para o filme a partir do meu arquivo pessoal.

 

Amigos e família têm sua parcela de influência na construção da identidade e sensibilidade dos músicos. Por isso, a opção de intercalar a narrativa com depoimentos de familiares dos biografados?

No fundo, trata-se de um filme também sobre os pais e sua influência no comportamento dos filhos. Mas, ao mesmo tempo em que eles tinham a cabeça feita, reagiam instintivamente ao controle da autoridade paterna da mesma forma como iriam reagir frente a qualquer autoridade opressora. A rebeldia começava em casa, mas o meio social e político era um apelo inevitável para eles. Às vezes, uma banda de rock é apenas uma banda de rock. No caso, quis mostrar as circunstâncias dessa formação e como ela perdurou no tempo. São histórias que se entrelaçam desde a experiência pessoal como aquela mais abrangente na vida de uma cidade como Brasília como num país como o nosso. É ver um show para um milhão de pessoas cantando em 2008 na Esplanada dos Ministérios, feito extraordinário do Capital Inicial, levantando a massa com Que País é Este? para entender o que acontece com o povo e a cultura brasileira.

 

De que maneira o documentário forma, junto com Conterrâneos Velhos de Guerra (1991) e Barra 68 (2000), também dirigidos por você, uma espécie de trilogia sobre Brasília?

Conterrâneos é a história não oficial de Brasília a partir de um massacre de trabalhadores durante a sua construção, fato que estava como que soterrado nos alicerces de concreto da capital. O Barra 68 é a conspurcação por parte da ditadura de um espaço sagrado, o do saber, que era a UnB criada por Darcy Ribeiro, invadida por tropas militares nos anos 1960. Rock Brasília completa essa tríade porque se ocupa do produto mais exitoso da experiência cultural de Brasília. Não foi o choro, nem samba, nem o folclore da região. Foi de certa forma um híbrido de tudo que aqui nasceu.   

 

O documentário brasileiro vive um ótimo momento, com lançamentos em quantidade e com qualidade. Por que essa linguagem tem atraído cada vez mais realizadores, tornando-se, muitas vezes, mais interessante que a ficção convencional?

Além do advento de recursos técnicos, como câmeras leves e captação digital, o anseio do público por conhecer de forma mais viva e direta o que chamamos de realidade social e humana mobilizou cada vez mais os realizadores de documentários. Penso que o documentário brasileiro sempre foi muito bom, embora escasso até década e meia atrás; o público é que melhorou em termos de quantidade e qualidade. Com grande parte de nossos filmes passando na televisão a cabo, com a proliferação de festivais de cinema por todo o país e o diálogo com novas plateias formadas nas universidades, e a existência de mostras e cineclubes, gozamos hoje de razoável aceitação no próprio mercado exibidor. Há setores que já demandam os documentários no mesmo patamar da ficção. Podemos falar de uma experiência enriquecedora e irreversível.

 

Passado e presente. Então vamos concluir sobre o seu futuro... Alguma novidade sobre seu projeto em torno do pintor modernista Cícero Dias?

A cada dia descubro mais pessoas que se relacionaram com o compadre brasileiro de Picasso. Colecionadores que foram a Paris só para conhecê-lo e que se encantaram com sua arte indelevelmente brasileira, apesar de o artista ter vivido mais da metade de sua vida na França, desde o final dos anos de 1930. Recentemente, descobri excelente arquivo com imagens de Cícero com a produtora pernambucana Dani Hoover e estamos em vias de nos associar ao mesmo projeto que terá Jacques Cheuiche como diretor de fotografia.

"Que País é Este?" Podemos dizer que Rock Brasília não é apenas um retrato do passado, mas uma ponte importante para se entender o presente. Como uma geração que queria mudar o mundo acabou mudando a si própria?

A perspectiva de hoje é outra justamente porque houve uma geração que, mesmo com seu tanto de ingenuidade, dialogou intensamente com os problemas de seu tempo. Mas talvez pela sinceridade da pegada não ideológica (e instintiva) acertou na mosca e deixou o seu legado. Agora o país é outro, as perguntas mudaram e a perplexidade continua a nos desafiar. A miragem das utopias é inesgotável. Uma ponte foi construída, mas outras travessias se abrem à nossa frente. Perguntem às letras do Renato Russo – elas estão cheias de uma latente sabedoria, que só a poesia traduz.