Adrián Biniez
Nascido em 28/8/1974 em Buenos Aires (Argentina), foi cantor e compositor da banda Reverb antes de se mudar para Montevidéu, em 2004. No Uruguai até hoje, trabalhou na Taxi Filmes e realizou, para a produtora Ctrl Z, os curtas 8 Horas (2006) e Total Disponibilidad (2008) antes de realizar sua estreia na direção do longa, Gigante, indicado em 10 categorias do César (o Oscar francês), incluindo melhor filme, diretor e ator (Vincent Lindon). O cineasta é ainda cantor da banda Federico Deutsch & Maverick, no Uruguai.
Em fevereiro deste ano, o cineasta participou de debate e visitou a 2001 Vídeo, onde tirou fotos e concedeu entrevista exclusiva para promover seu último trabalho, Gigante. Confira nossa entrevista com o cineasta:
Você participou de um debate em São Paulo. É sua primeira visita ao Brasil?
Sim, é a primeira vez. Logo que cheguei, a primeira coisa que me chamou atenção foi uma grande tempestade, a mais forte que já vi em toda a minha vida (rsrs).
Embora nascido em Buenos Aires, você vive há seis anos em Montevidéu (Uruguai). Como foi essa mudança profissionalmente?
Mudar para Montevidéu mudou minha vida. Sempre fui cinéfilo, assistia a muitos filmes, mas nunca estudei ou fiz cinema em meu país. Na Argentina, cantava em bandas de rock, até que me mudei para Montevidéu em janeiro de 2004. Comecei uma nova vida e tive a chance de fazer dois curtas [8 Horas, Total Disponibilidad] e Gigante. Gosto muito mais de Montevidéu do que de Buenos Aires...
Em 2003, você teve uma pequena participação como ator no filme Whisky. Como você conheceu os diretores Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella (que cometeu suicídio em julho de 2006)?
Há uns dez anos atrás, fui a Montevidéu tocar com minha banda. Depois do show encontrei os dois e acabamos nos tornando amigos. Quando me mudei para Montevidéu de vez, ficamos mais próximos e eles sempre me diziam "você tem de escrever algo", então trabalhei com eles no roteiro de uma série de TV, que não foi aprovada. Depois dessa experiência, escrevi o roteiro de Gigante e o levei para a produtora Ctrl Z Films, que gostou e me pediu para fazer um curta-metragem antes, já que eu não tinha experiência. Assim surgiu o curta 8 Horas, em 2006, e a Ctrl Z concordou em produzir Gigante mais tarde.
Como surgiu o projeto do filme?
Lembro que estava procurando por ideias para meu primeiro filme e listava frases curtas em meu computador. Gostava muito da ideia "guarda de segurança apaixonado por faxineira no supermercado" e pensei que talvez funcionasse. Levei três meses para completar o primeiro tratamento do roteiro.
Se inspirou em alguém em especial para criar o protagonista Jara?
Sim, em um amigo meu chamado Fabián Jara, um homem bem grande e alto. Ele não era ator profissional e foi muito difícil trabalhar com ele... Ensaiamos muito, mas ele foi muito mal... Então, decidimos fazer um novo casting e Horacio Camandule foi o primeiro a aparecer. Começamos a ensaiar e em dois meses o personagem estava pronto. Foi o primeiro filme dele. Horacio trabalha até hoje como professor de escola primária, e eventualmente como ator teatral.
A personagem de Leonor Svarcas [intérprete da faxineira Julia] é quase sempre monitorada e observada a distancia. De certa forma, Jara acaba assumindo um lado voyeurístico, não?
Desde o início tentei construir Jara como um "perseguidor bem gentil" – as pessoas podem se apaixonar de diferentes formas na vida, não é um comportamento tão estranho assim... Não é uma história sobre obsessão.
Há também um humor sutil no filme.
Gosto dessa forma de contar uma história, misturando drama e humor, pois a vida cotidiana é assim. Gosto dos pequenos detalhes presentes em cada personagem.
Você mostra alguns dos pequenos prazeres do homem contemporâneo ainda em transição para a vida adulta. Você guarda algo em comum com Jara?
Muitas coisas. Venho de uma família da classe operária e gosto muito de música – bandas como Black Sabbath, Motörhead. E adoro o Sepultura!
Ficou surpreso com os prêmios recebidos no Festival de Berlim?
Foi muito estranho, pois finalizamos o filme dois dias antes do festival. Foi uma loucura, e tem sido desde então, com viagens para diferentes países, como agora o Brasil. Como é meu primeiro filme, tem sido uma experiência nova – e estranha ao mesmo tempo.
Whisky é um dos poucos filmes uruguaios lançados comercialmente no Brasil, mas a produção na Argentina tem crescido, dois títulos latinos concorreram ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano [o peruano A Teta Assustada, disponível em DVD, e o argentino O Segredo dos Seus Olhos] e agora temos Gigante. Como você vê o cinema latino-americano hoje?
Acredito que é um bom momento para o cinema latino-americano – em termos de quantidade... Agora mesmo, estava na loja de vocês olhando a prateleira de cinema latino ao lado do cinema asiático, e acho a produção do Oriente incrível, muito mais significativa. O cinema da América Latina está melhor do que há 10 ou 20 anos, mas precisa melhorar muito.
Falando em futuro, poderia falar um pouco sobre seus novos projetos?
Estou escrevendo dois roteiros diferentes: um sobre um jogador de futebol, de 34 anos, em sua última temporada; e o outro é um filme policial, baseado em história que li na imprensa brasileira sobre traficante colombiano [Juan Carlos Abadia] que está sempre fugindo da polícia. Os dois projetos estão bem no começo, e não tenho dinheiro algum ainda, nenhum dólar! (rsrs).