"Meu Deus é o movimento incessante da vida para viver, apesar da morte.”
Matheus Nachtergaele

Matheus Nachtergaele
Em entrevista exclusiva para a 2001, Matheus Nachtergaele falou sobre sua elogiada estreia na direção e um pouco sobre a volta aos palcos e o filme O Bem Amado.
Como surgiu a ideia para A Festa da Menina Morta ? Fale um pouco sobre o início da gestação do projeto.
Durante as filmagens de O Auto da Compadecida estive numa festividade muito curiosa que me ofereceu o argumento para o roteiro do filme. Próximo a Cabeceiras, no interior da Paraíba, todos os anos acontece o festejo da 'Cruz da Menina', numa roça distante, perdida no sertão. Pessoas da redondeza chegam de carro, ônibus e a cavalo para celebrar um suposto milagre: após muito orar e pedir pela volta de uma menina de três anos desaparecida, uma família muito religiosa acabou encontrando, preso a um espinheiro, o vestidinho rasgado da mesma. Isso me impressionou demais. Que milagre era aquele? Que capacidade era aquela de celebrar feito tão tristonho? Se a menina nunca foi encontrada, o que havia sido poupado do ciclo infernal? A fé não seria, em último caso, a nossa proeza de dar sentido ao vazio de existência? Essas perguntas deram início ao projeto do filme A Festa da Menina Morta.
O roteiro fala muito sobre perda e a forte ligação entre mãe e filho. Você também perdeu sua mãe precocemente. Assistindo ao filme, sentimos seu coração e envolvimento pessoal com a história. Você não se sentiu tentado a interpretar o personagem principal?
A história retrata a relação dos vários personagens com a seita, e cada um deles carrega seu próprio luto. Estamos diante da religiosidade como busca de redenção. Da fé como superação cega das dores pessoais e coletivas. Eu mesmo lido com isso diariamente. A morte de minha mãe tingiu meu mundo de melancolia, e a arte me ajuda a colorir de tons diversos a existência enlutada... Considerei que o protagonista, por viver situação semelhante à minha, deveria ser feito por outro ator. Um ator corajoso e genial: Daniel de Oliveira, ele mesmo órfão de pai e cheio de razões para desenvolver o protagonista de forma intensa e pessoal. De qualquer forma, meu depoimento particular está em Santinho, mas também em todos os outros personagens. Não conseguiria dirigir e atuar nesse filme. Além de tudo, foi minha estreia na direção – e, garanto, o trabalho não é pouco! É preciso dividir a criação com parceiros admirados e queridos.
Como foi o processo de seleção e a preparação dos moradores de Barcelos [cidade do interior do Amazonas] usados no elenco?
Desde que decidi filmar em Barcelos, passei (com apoio do Governo do Amazonas) a ir com frequência a Manaus e aproveitei para ir muito ao teatro, ministrar workshops e, aos poucos, escolher meus atores. Temos no filme atores de cinema e teatro contracenando com moradores de Barcelos. Para que isso pudesse acontecer, passamos quatro semanas no local das filmagens ensaiando oito horas por dia com todos eles. Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré, Dira Paes, Jackson Antunes e Cássia Kiss precisavam estar em cena muito familiarizados com o tema e os hábitos locais. E os atores de Manaus e Barcelos não podiam fazer feio! Valeu a pena, o resultado me agradou bastante.
Atores como você, Selton Mello e, mais recentemente, Marco Ricca, têm passado para trás das câmeras. Quais as maiores vantagens (e dificuldades) nessa transição para a direção de cinema?
Hoje tenho muita consciência de tudo que precisa ser movido para que um ator esteja diante de uma câmera, interpretando. Fazer cinema no Brasil é um desafio dos grandes, os diretores e produtores sérios merecem todos os nossos aplausos! Ser um ator de cinema me facilitou em algumas etapas de todo o processo, mas os desafios foram iguais aos de um diretor não-ator: conceituar, captar recursos, escolher com cuidado a equipe e o elenco, saber dividir a criação sem perder as rédeas do processo, montar o filme com tempo e bem acompanhado, e tudo o mais.
Foi difícil convencer Jackson Antunes a aceitar o papel do pai de Santinho? Há muito preconceito e polêmica desnecessária em torno da relação incestuosa (e consentida) entre o pai interpretado por Antunes e o filho Santinho.
Jackson e todos os atores estavam muito envolvidos com o filme e sua temática. Não houve nenhum constrangimento em nenhuma cena. A cena do incesto é filmada de forma intensa, mas delicada, e sob um temporal amazônico daqueles! A relação de Santinho e seu pai obviamente choca algumas pessoas, mas eles estão juntos numa tentativa desesperada para superar e até mesmo esquecer a ausência da mãe, da mulher da casa. Nesse sentido, Santinho está se esforçando para ocupar o espaço dela, e o pai está, na verdade, casado com ela em seu filho. Adoro o amor dos dois. Mas esse é apenas um dos aspectos do filme, existem outros, muitos outros. É um filme de camadas, de muitas instâncias.
O filme evita o realismo documental e a pretensão de tese antropológica, recriando o interior da Amazônia e suas tradições ritualísticas por meio de elaborada concepção visual.
O Norte do Brasil é pouquíssimo retratado no nosso cinema. A última experiência relevante em ficção foi Iracema, uma Transa Amazônica [de Jorge Bodanzky e Orlando Senna], na década de 70. Procuramos nos aproximar dessa realidade de maneira sóbria e encantada, e em todos os aspectos tentamos não mentir ou folclorizar o que víamos. Mas a poesia tem rédeas longas, o que nos deu liberdade para sair do realismo e tentar algo que chamo de “naturalismo fantástico”. Atores, fotografia, arte, tudo caminha nesse sentido: o vôo com base nas dores e belezas da vida, da Amazônia, da fé cega...
A ambientação chama muita atenção, pois não é o Brasil de cartão postal nem a realidade pré-fabricada que vemos todo dia na TV. Como foram as filmagens no município de Barcelos?
Em Barcelos, ainda temos, por exemplo, pajés atuantes. Apesar da modernidade e do cruel capitalismo, algo ali está intacto, até pela dificuldade de acesso -- Barcelos fica a 4 mil km de Manaus, e só se chega lá em dois dias de barco! O hip-hop convive com a pajelança indígena, a internet com a natureza absolutamente luxuriante e agressiva, o desejo de modernidade com a melancolia das origens tupiniquins...
Embora crítico à exploração da fé, o roteiro escrito por você e Hilton Lacerda demonstra respeito e compaixão por seus personagens. Você segue alguma religião ou credo pessoal?
Meu Deus é o movimento incessante da vida para viver, apesar da morte. Estamos livres para amar todas as religiões, pois não pertencemos a nenhuma. Vejo o filme como a observação encantada, mas sóbria, de um ritual que mescla nossas “fés” todas: a pajelança indígena, o catolicismo, o candomblé, o espiritismo e, por que não, as festas pagãs.
Questões como a fé e o sacrifício individual nos remetem a seu trabalho no Teatro da Vertigem nos anos 90, sobretudo na peça O Livro de Jó. Tem planos de voltar a atuar nos palcos?
Tenho sentido falta dos palcos, apesar de continuar muito ativo no cinema e na televisão. Depois de filmar Febre do Rato, de Cláudio Assis, no primeiro semestre de 2010, quero fazer teatro. Estou lendo e acho que encontrei um texto bacana! Segredo de Estado (rsrs)!
Como foi sua participação em O Bem Amado, de Guel Arraes?
Adorei o desafio de ser o Dirceu Borboleta! Procuramos, Guel e eu, evitar fazer o que Emiliano Queiroz eternizou... Nosso Dirceu é diferente, mais melancólico talvez, e a graça surge em sua fé na honestidade e no choque disso com as 'trapaças' de Odorico...
Você trabalhou com Alice Braga, Catalina Sandino Moreno e Brendan Fraser no filme 12 Horas até o Amanhecer, de Eric Eason. Você gostaria de atuar mais em produções internacionais?
Gostei das experiências que tive com diretores estrangeiros, como Herbert Brödl [Eclipse], Ignacio Castillo Cottin [A Virgem Negra], Eric Eason, Marco Bechis [Terra Vermelha]... Mas minha energia maior está voltada para o Brasil. Sou um ator em português! Mas dou minhas “escapadas”!
Diferente do cinema nacional mais recente, seu filme se aproxima da proposta autoral de nomes como Lucrecia Martel (O Pântano) e Pablo Larraín (Tony Manero), cineastas latino-americanos que conseguem evitar concessões comerciais, criando um universo próprio. Para não ficarmos no Brasil, cuja lista seria imensa, quais são seus diretores e atores internacionais favoritos?
Adoro Kurosawa, Meryl Streep, Carlos Saura, Pasolini, Woody Allen, Bergman, Grande Otelo, Kazuo Ohno, Dostoiévski, Marguerite Duras... e não perco nenhuma animação da Pixar!