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Ao que se deve o interesse cada vez maior do público brasileiro pelos documentários?
Eu acho que essa é uma tendência que não é exclusiva do Brasil, tem a ver com um aumento geral no mundo. Mas, especificamente no Brasil, eu acho que o lado da produção, a gente pode mencionar os mecanismos de incentivo fiscal; apesar do documentário não estar diretamente relacionado com esses mecanismos, há diversos diretores, principalmente que fazem longa-metragem, que acabam tendo acesso. Então você tem documentários levantando R$ 700 mil, R$1 milhão, até R$1,5 milhão para serem feitos. Não são os valores do cinema de ficção, mas são valores razoáveis. E tem também o DocTV, que é uma intervenção em termos da produção documentária forte, do Estado na produção de documentários. Já está na terceira edição, teve uma edição ibero-americana, vai ter a segunda edição ibero-americana, então, são cerca de 120 documentários produzidos pelo Estado brasileiro. Então, isso é significativo. Agora, eu realçaria ainda outros pontos, por exemplo, a televisão a cabo, que teve um boom a partir dos anos 2000. Já existia antes, mas teve um reforço, teve uma expansão a partir da década de 90 e vem se acentuando cada vez mais. Aos poucos, mas cada vez mais. Essa televisão a cabo tem muito documentário, tem vários canais de documentário. Um documentário mais tradicional, mas é documentário: Discovery Channel, BBC, Animal Planet, History Channel, GNT... Vários canais de cabo que trabalham com o documentário, que antes não havia. Antes tinha a TV Cultura, que passava de vez em quando. E, por último, eu acho que também esse conjunto de elementos que a gente chama de novas tecnologias, mais especificamente – eu não gosto desse termo “novas tecnologias” – mas, mais especificamente câmeras de vídeo, câmeras digitais, que liberam a filmagem da película, que é muito cara. Hoje todo mundo tem a sua câmera de filmagem, você fica liberto da duração do rolo e pra montar também é muito mais fácil. E, para exibir, você também tem a internet. Não é nenhuma exibição... Às vezes até que tem um público grande. Mas tem Youtube. Meus alunos filmam e colocam na internet. Enfim, é uma série de fatores. Agora, que há um interesse, há. Veja: 30% dos filmes lançados ano passado – isso é um dado da ANCINE – foram documentários. Não em termos de público, mas em termos de número. De público é bem menos que 30%. 30% dos filmes nacionais lançados era documentário.
Qual a importância de Eduardo Coutinho e João Moreira Sales nesse cenário?
O Coutinho e o Sales, no meu ponto de vista, são dois diretores maduros. São dois documentaristas que já têm uma carreira. Coutinho tem uma carreira que vem desde os anos 80, como autor independente já nos anos 70, no Globo Repórter. E o João Sales aparece nos anos 90. E são autores que atingem a maturidade plena no final dos anos 90, início dos anos 2000. É algo significativo o Brasil ter dois documentaristas de primeiríssima linha, como o Coutinho e o João Sales.
Paulo Sacramento afirma que o documentário quer ouvir e a ficção falar. Você concorda com este ponto de vista?
Eu acho que o documentário quer falar. O documentário, antes de tudo faz asserções sobre a realidade, mais do que a ficção. A ficção, na verdade, você se entretém, principalmente na ficção mais clássica, na narrativa ficcional dominante, você se entretém com hipóteses ficcionais de criação: quem fez, quem não fez, os personagens, se vai dar certo. Você para no tempo e na sala de projeção escura você se relaciona com o filme. É uma série de questões, de expectativas, de realizações... Você se entretém com o que colocaram. E o documentário faz, também de uma maneira geral, faz as questões sobre o mundo. As questões podem vir expressas através de uma voz fora de campo, de diálogo, alguns documentários com forte carga poética, as questões praticamente se diluem, mas você tem esse fundo temático, por assim dizer. Acho que o documentário fala bastante também.
No Brasil, o documentário geralmente está ligado ao social. Por que essa preocupação orienta a produção brasileira?
Essa é uma tendência do cinema brasileiro como um todo e eu acho que está claramente relacionada com a sociedade em que a gente vive. O Brasil é um país dividido, a gente tem 90% da população excluída. Os 10% que podem fazer documentários são pessoas da classe média. Agora tem um movimento nas comunidades, nas favelas, etc, esses núcleos de produção. Mas, de uma maneira geral é a classe média que faz documentários e que faz cinema. Então acho que existe um certo movimento de má consciência, eu diria, ou de boa consciência também, mas... Que mostra essa cisão da sociedade brasileira, essa preocupação social. Coisa que em outros países não existe, essa é uma temática exclusivamente brasileira.
Qual o impacto de Michael Moore nos documentários após seus filmes serem sucessos mundiais de bilheteria?
Olha, não sei se a gente pode falar de impacto, mas o Michael Moore é um diretor forte, polêmico. Tem gente que gosta, tem gente que não gosta, tem gente que não gosta do estilo dele, acha que é manipulador, tem gente que – pelo contrário – acha que é um diretor engajado e que ele faz um documentário engajado, que dá sua mensagem, uma mensagem engajada. Eu acho que é um diretor polêmico e tem uma presença midiática forte.
Você acredita que a polêmica obra desse diretor estimulou o debate sobre a ética e a encenação nos documentários?
Não sei se foi o Michael Moore. Hoje também é outro traço do documentário brasileiro uma certa obsessão com essa questão da encenação. Tem um filme como O Juízo, da Maria Augusta Ramos que debate uma ficção central, a criminalidade entre menores de idade. A gente lê as resenhas sobre o filme, parece que o filme é sobre o estatuto narrativo do documentário, a questão do discurso, da encenação, o que significa trabalhar com atores, não trabalhar com atores, com o encenado, mostrou que estava encenado... Isso não é central no filme, isso não é o ponto de vista. Essa preocupação – e você tem a produção recente do Coutinho, do João Sales – é uma obsessão que se vê na crítica e os cineastas acabam absorvendo essa preocupação com o estatuto do discurso, da linguagem documentária. E muitas vezes a temática do filme não é essa. Isso também é tipicamente brasileiro. Sai daqui, você tem um ou outro diretor, um ou outro crítico que se detem sobre esse assunto, mas não dessa maneira tão intensa como no Brasil.
Até que ponto a dificuldade de acesso ao que se vem fazendo no mundo prejudica a produção nacional, principalmente os novos documentaristas, que assim acabam ficando à margem da produção mundial?
Tem um acesso razoável pra um país como o Brasil e também não sei se haveria um interesse em ter tanto mais acesso. Acho que às vezes existe até um deslumbramento com o que está fora. Então, eu acho que a gente tem que conhecer bem a produção nacional, a produção brasileira, o que a gente faz aqui. E ter uma abertura para o que vem de fora. Eu não acho que o Brasil seja especialmente isolado em relação à produção mundial, eu acho que tem uma certa dificuldade pra chegar aqui, como também a produção americana tem uma certa dificuldade para chegar na França, ou na Espanha, ou em Portugal, ou na União Soviética. Enfim, há sempre essa especificidade nacional em relação ao intercâmbio. Eu não acho que o Brasil seja um país particularmente isolado em termos da produção documentária e de audiovisual em geral.
Que diretor(es) de filmes documentais você destacaria hoje no cenário mundial? E por quê?
O Errol Morris, que eu gosto muito dele. É um diretor forte, que tem uma presença internacional marcante, que já realizou clássicos como The Thin Blue Line e tem uma influência no documentário brasileiro maior do que se supõe. Filmes como Gates of Heaven ou Vernon, Florida lembram muito a obra do Coutinho. O Coutinho conhece esse primeiro filme do Errol Morris, dialoga com ele. Enfim, particularmente, é um diretor que eu gosto bastante. Isso em termos norte-americanos, da produção norte-americana. Tem um diretor que chama Peter Watkins, que não está filmando muito agora, mas que também teve filmes como Culloden, A Bomba, A Comuna, um filme muito bonito que chama Punishment Park, é um diretor forte, que mantém uma produção esporádica, mas que ainda é presente. Um filme recente, que se chama Tarnation, de Jonathan Caouette; é um filme muito forte, em primeira pessoa, um pouco na linha da Sandra Kogut, do Kiko Goifman. Um filme sobre a vida do próprio Jonathan, que também é um diretor que eu destacaria.
Indique aos nossos clientes cinco documentários que você julga serem imprescindíveis.
Vamos começar com esse filme que eu mencionei, chama A Comuna, do Peter Watkins, que é um filme que eu gosto muito e que é muito forte. Do Christian Marker, o Sans soleil, que eu acho que seria um filme central para pensar a contemporaneidade no documentário. Cabra marcado para morrer, eu acho que teria que entrar. Do João Sales, eu acho que o Santiago. E Errol Morris, o The Thin Blue Line. |
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