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A Enciclopédia dos Monstros traz muitas informações sobre o tema, além de rico material ilustrado. Fale um pouco sobre a criação dessa obra.
O livro nasceu de um contato com o editor Pedro Almeida, da Ediouro. Ele pediu ao estúdio Opera Graphica sugestões para projetos que rendessem livros na linha dos almanaques que a editora tem publicado nos últimos anos. Como era um dos colabores, fiz uma lista de idéias e a dos monstros foi aprovada imediatamente.
O que o levou a se interessar pelo assunto?
Os monstros têm sido minha companhia de toda a vida. Quando garoto, na década de 1970, a família se assustava por causa do meu vício em ler gibis de monstros. Principalmente uma coleção chamada Capitão Mistério, da Bloch Editores, que trazia criaturas como Drácula, Frankenstein, Múmia, Lobisomem etc. Depois, criei coragem para ver os primeiros filmes. E não larguei mais. Em seguida, veio a literatura. Curiosamente, os monstros nunca me assustaram ou causaram repulsa. Por causa disso, acumulei um bom acervo de gibis, filmes (VHS e DVD) e livros que facilitaram muito a produção do livro. Diria que 90% do que foi usado vieram de minha coleção.
Nos últimos anos, observamos uma guinada nas representações dos monstros nos cinemas. O exemplo mais claro talvez seja o ogro Shrek, herói de uma história na qual o vilão é belo. A que se deve essa mudança de paradigma?
Essa é uma questão complexa e interessante. Na maior parte do tempo no século XX, a censura foi implacável no sentido de estabelecer padrões morais rigorosos no cinema, na TV e nos gibis pelos quais bandidos e mocinhos deveriam ser claramente identificados pelo público. Os bons eram belos, fortes, atléticos, de boa aparência. Os maus, feios, mal encarados, monstruosos. Felizmente, graças à TV e aos gibis, esse maniqueísmo se diluiu. A Família Adams e Os Monstros foram séries importantes nesse sentido. Eram todos monstruosos porém totalmente do bem, adoráveis, até. E isso contaminou o cinema, principalmente infantil. Tivemos Monstros SA e o Corcunda de Notre Dame, que serviram muito para educar as crianças e mostrar que os feios podem ser bons e os bonitos, maus. Shrek, ao que parece, tinha claramente esse propósito. Afinal, é assim no mundo real, não? Basta ver os monstros serial killers ou os políticos vampiros que sugam o dinheiro público. Estes têm uma aparência bem normal no dia a dia, não é mesmo?
Qual é o maior monstro do cinema? Por quê?
Drácula, sem dúvida. Ele apareceu em pelo menos 152 dois filmes até 2007. Mas prefiro Frankenstein, o mais adorável de todos, vítima da ganância, da megalomania e do preconceito humanos. Mas não sei se gostaria tanto dele se não tivesse sido interpretado por Boris Karloff..
A Enciclopédia nos apresenta ainda a evolução dos monstros ao longo da história humana. Em sua opinião, qual dessas criaturas melhor representa nosso tempo? Por quê?
Eu acho que são os serial-killers. O FBI estima que pelo menos 100 matadores em série estão permanentemente em atividade nos Estados Unidos. A luta da polícia é para impedir que eles matem muitas pessoas porque não se pode prevê-los. Nessa categoria entram os malucos que saem por aí atirando nas escolas. Os filmes O vídeo de Benny e 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso, ambos do diretor Michel Haneke, mostram bem o quanto os pais e a sociedade são responsáveis pela criação desses monstros. E o quanto todos nós somos indiferentes, insensíveis, passíveis e estupidamente cúmplices de tudo isso
Muitas vezes a monstruosidade está ligada também à sexualidade humana. O que podemos observar, no cinema, no clássico Sangue de Pantera (1942) e de maneira mais explícita no vampiro Drácula. Discorra um pouco sobre essa associação.
São muitos os filmes que fazem esse tipo de abordagem, como se o sexo fosse uma preocupação fundamental, a motivação dos monstros. É algo que vem de Jack, o estripador, creio. O propósito me parece claro: o de coibir a sexualidade, dentro de um contexto extremamente moralista e repressor. A erotização do vampiro Drácula é um fato bastante enigmático nesse sentido e até merece uma tese de doutorado. Curiosamente, o vampiro de Dusseldorf não escolhia pescoço para atacar, inclusive de homem, o que levou a uma leitura homossexual do personagem.
Outro aspecto interessante tem a ver por vezes com certo discurso moral e religioso subentendido nessas imagens. Os monstros têm também uma função disciplinatória?
Sim e isso vem de muito antes do cinema. Data da Idade Média, quando os monstros dos contos de fada e da Bíblia jogavam os crentes nessas criaturas em universos fechados e repressores. Não podemos esquecer das bruxas que, segundo a Igreja, transformavam-se em monstros. Havia, sem dúvida, uma forma de dominação castradora e disciplinatória por parte da Igreja. No cinema, não foi diferente. Daí o maniqueísmo em tornar os filões feios e temerosos, muitas vezes, verdadeiros monstros.
Quais são seus próximos projetos?
Escrevo três livros ao mesmo tempo, todos em fase de finalização: as biografias de Herbert Richers e Eugênio Hirsch (o cara que revolucionou o mercado de livros com suas capas geniais para a Civilização Brasileira na década de 1960) e um estudo crítico da filmografia de Michael Haneke. Nenhum tem editor. Alguém interessado em publicar algum? |
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